sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Quem vem lá

Conheci pequeno. Ainda bebé, no colo da mãe, prometiam seus olhinhos serem o plus a mais como dizem os redundantes. Quando moleque, pivete ou garoto era desprendido e alienado, resolvido e atormentado, fazia arte arteira, mordia bochechas e revirava lixeiras. Assim, bem de repente naquele surto de destreza ou ímpeto audacioso, colecionava trotes nos outros que faziam rir e chorar a mãe lamentosa que hoje, certamente, guarda disso tudo simpáticas recordações.
Era daqueles de extremos ou nos agraciava com proezas dignas de menino prodígio, ou fazia sumir o mundo ao redor pulverizando tudo quanto fosse cobrança e apego. Era lindo de se ver.
Hoje em dia um tanto quanto mais compenetrado com o dito mundo real se deixa prender pelas regras sociais. Vem crescendo, se encaixando aos trancos e barrancos em normas bem normais. Desgosto? Não, não diria. Pois a força de seus olhinhos ainda é de surreal, tem um profundo tão próprio que é difícil penetrar. Não sei dizer se é de fora pra dentro ou de dentro pra fora, se capta e suga ou se inunda e transborda. Desnorteia isso é certo. Extravasa. E esse serzinho em meio ao cotidiano doido, que seleciona os mais circunspectos, sofre por ser incompreendido. Ainda não sabe que de suas piruetas, o balé esta prestes a começar.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Intervalo

Alegorias passam na frente de meus olhos fechados e aqui eu escolho as melhores alas desse devaneio consciente para costurar uma idéia que ainda não tem forma, mas desejo e nessa hora o antiquado dedal cai como luva, não deixando ferir o coração já esperto de tanto viver travessuras.
Será que foi mesmo só, aquilo tudo, um simples nada? Não pode. Será que a inocência dos atos e a pureza do sentir veio e foi como chuva de verão em tempos de catástrofe global? Fulminante, dizem por ai.
Já distante daquilo tudo, imagino saber quando será possível abraçar aquele abraço novo, de novo e beijar pela segunda vez aquele primeiro beijo com jeito de velho conhecido. E de camarote vejo o mundo desabar em lágrimas, tendo comigo apenas a visão turva da cordilheira que nos separa. Teimosia, eu resmungo. Deixe a tempestade passar e pare de querer remar contra, como quem rema num mar de gente para ver o bloco passar. O melhor é seguir o fluxo, aconselham os de pé no chão, descomplicando o que já é complicado por natureza. Então, me escapando uma pontinha de loucura, dou asas à vontade que cresce e contagia que nem coro de torcida em dia de decisão. Porém, desconhecendo as histórias alheias e até mesmo as próprias, rejeito esse pensamento e ilumino a idéia de um forninho encantado que cozinha em fogo brando, poções mágicas para ser feliz.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Quaresmeira

Reflexões de um ano passado

Lé com lé, tré com tré um sapato em cada pé diz a minha avó e os meus pés estão descalços no lusco-fusco, n' água doce de represa. Eu pequena, acuada, pés no lodo onde há girinos que mordem. O vazio do dia anoitecendo, a despedida do feriado bom, dos tempos passados em prosa...tempo suficiente para se fazer e esquecer juras vãs. Nesse misto de medos e verdades, de mitos e coragens eu prefiro esconder meus pés na coberta, enroscando pro frio não me pegar. é assim que eu gosto e vai ver que você nem sabe.
Eu relembro a data e percebo que tudo aconteceu antes do carnaval chegar. Já se gozou do encontro e já se viveu o ranço do dia cinzento em hora que ofusca. A quaresma esse ano será mais longa, pois em tempos de folia não houve promessas nem pierrot. Nessa hora exata eu fui buscar o concreto construído tijolo por tijolo num desenho mágico e o meu gato tigrado de bigode ruivo correu na direção sul se esquivando do concreto, buscando na dúvida razões mancas para a vida com menos culpa. Eu fiz o mesmo rumando o norte que a bússola me apontou e o pré-carnaval ficou aí tentando achar o seu espaço entre as direções opostas.
Não há nada de novo, é só mais um feriado que se foi...e nem deu para aproveitar o último dia. Volte cedo para casa, tome um pingado com pão e manteiga e pé na estrada, o trânsito promete.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Aparece pra mim, vai!

Macaco da Tinta
"Este animal existe em abundância nas regiões do Norte e tem quatro ou cinco polegadas de comprimento; os olhos são como cornalinas e o pêlo é negro azeviche, sedoso e flexível, macio como um travesseiro. Possui um instinto curioso: é grande apreciador de tinta nanquim e, quando as pessoas escrevem, senta-se com as mãos uma sobre a outra e as pernas cruzadas, esperando que tenham terminado, e bebe o que sobra da tinta. Depois volta a sentar-se de cócoras e fica tranqüilo."
Wang Ta-Hai, 1791

Extrato d'O Livro dos Seres Imaginários - Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

e que venham os perus!

Mandou fazer cortinas pra enfeitar a casa no fim do ano, escolheu tecidos finos, muitos metros bem franzidos como manda a moda de vinte anos atrás. Lurdinha é daquelas que gosta das coisas em seus devidos lugares. Copos alinhados na prateleira, cada qual com seu porta-copo evitando marcas de suor. Café no bule e chá na chaleira. Os vasos, ah seus vasos, todos com decalque comprovando a origem, exaltando a proveniência. - Etiqueta não se tira! - ensina ela mostrando orgulhosa a herança da avó, um legítimo murano e um adesivo azul com cola amarela. Outros mimos de Lurdinha são as miniaturas em cristal. Tem de toda sorte: cachorrinho, peixinho ou um caracol que reflete do casulo uma cor violeta. - Esse daqui é o lapin. Diz, tentando ser sapeca, enquanto mostra o protótipo um de coelho.
Esperadas as três semanas do prazo a encomenda finalmente chega e faltavam poucos retoques na casa pra ela receber o meio mundo que idolatrava. Eram então o sobrinho e a namorada, o irmão mais novo e a vizinha solteira, meio que sem eira nem beira que só ia mesmo para temperar a soirée.
Mandou quarar e passar toalha rendada, limpou a prataria, comprou um aparelho DVD, colou com superbonder a alça da velha jarra d’água e pronto, aos seus olhos estava tudo perfeito.
Tamanha era sua alegre inocência, ela bem que tentou marcar tudo para o dia certo, mas aparentemente todos já tinham compromissos inadiáveis, sabe-se lá o que. Portanto, quando nas ruas ainda se curtia a ressaca do natal, enterravam-se os ossos, naquele eterno dormir e acordar do dia seguinte, Lurdinha e a ajudante, contratada para o evento, estavam a mil com o apartamento cheirando a cravo e pernil. Rabanadas para a sobremesa acompanhando o Pannetone e ela nem se dava conta de que aquilo tudo era óbvio demais.
Lá pelas seis da tarde a vizinha aparece dizendo do cheiro, que de tão bom subia até o quarto andar. Mais meia hora, o irmão então chega acompanhado de uma mocinha estranha para a surpresa de Lurdes Maria que só havia previsto cinco lugares na mesa.
Entre olhadelas no forno e fiquem a vontade, o tempo foi passando e quando viu já passava das nove e meia. De Lucas, seu sobrinho, nem sinal, tampouco de sua namoradinha que ela nem se lembra o nome, mas tem consigo que é gentil e boa moça.
Resolvem assim enganar o estômago comendo pedaços do peru que já estava cozido e mais um pouco esturricava no forno. Foi no sofá mesmo, beliscando de um prato comum colocado delicadamente pela anfitriã na mesa de centro que ficaram assistindo a um programa na tv. Dali a pouco chegou a farofinha para acompanhar, as rabanadas e na hora em que Lurdinha propõe, como que despretensiosa, o filme alugado especialmente para a ocasião, querendo fazer crer que seu modernozo aparato DVD lhe pertencia de longa data, a campainha toca e seu sobrinho cheirando a ontem entra diluindo o papo, evitando delongas nas respostas da noitada moribunda. Logo o irmão dá aquela despertada, cutuca a amiga que tenta disfarçar pra não ficar chato, mas não dá mais.
-Muito obrigada por tudo e até a próxima! Foram embora.
Sobrou a vizinha que cantarolava qualquer coisa pra ela mesma e os dois: tia e sobrinho. Foi ali no reme-reme que ficaram algo como uns vinte e três minutos, passados, religiosamente, em vinte e três minutos, quando a vizinha então se despede em meio a um bocejo acebolado.
Dai pra depois nada de mais: Lucas se aboleta no sofá e começa a ressonar enquanto Lurdinha dá a última olhada na casa ainda pronta para a festa, recolhe pratos e talheres limpos, empacota o Pannetone intacto para não ressecar e suspira um ar cheio de vontade.

Porcaria

Concordo com Cesária Évora, “exte amur di hoj'em dia, é u'amor di purcaria”. Gosto mesmo é do meu gato que me morde quando eu lhe dou nos nervos, mas continua folgado nos meus braços, de pernas abertas esperando meu próximo ataque.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Clichê

Texto inspirado na música Paris s'eveille de Jacques Dutronc


Ele ou ela, um personagem qualquer, sem traços, ou abraços. Cabelos, sim os têm, assim... como dizer... curtos, castanhos, nem lisos nem ondulados. Retrato falado do famigerado Joe, Regular Joe, ou do Zé, o Zé Ninguém, que pode ser homem ou mulher, um fulano qualquer, sem sofrimentos anormais, nem alegrias exacerbadas, sem crimes ou castigos, apenas mais um que acorda e vai dar uma olhada em qualquer lugar do mundo.
Caminhar ele sabe e é preciso, sai de casa às cinco da manhã numa daquelas épocas escuras de horário trocado, padarias que ainda cheiram a farinha, travestis e putas voltando da labuta, velocípedes e bicicletas estacionados na inércia para mais um dia de trabalho. O primeiro trem em marcha lenta recolhe taciturnos e matutinos misturados, lixeiras vazias ainda iluminadas pelos postes das vias, são palco para gatos ora acuados, se esbaldarem. Não é noite não é dia, ainda não faz calor, mas o vento sossega e assim, ele ou ela observa, sem conseguir participar. Vive, mas não à vontade, se escondendo, sem querer, pelo caminho que em breve se transformara em cidade.
Um quarto d'hora se passou e nosso amigo Joe ou Zé, que pra facilitar vou chamar de Josué não pára, ou pára, mas teme, hesita como quem diz, estou de altas, num botequim para o seu café com leite. Em goles, engole tudinho fazendo barulho de menino, limpa a boca com a mão, passa a mão no cabelo, agradece singelo e continua caminhando. Cinco e meia Josué já vê nas ruas garis e suas vassouras loucas que perturbam os de sono leve, dali a pouco chegam os operários remelentos, as mães e seus rebentos para mais um dia que promete ser intenso. Quase seis horas, Josué, que já não era destaque, porta bandeira ou estandarte, rodopia, se mistura e se perde intensamente fazendo a vida à toa se transformar em arte.

domingo, 28 de outubro de 2007

Terra do Nunca

Conheço dois meninos perdidos assim do estilo deixa-a-vida-me-levar que eu levo a sério. De seus desencontros fazem seus, os maiores acertos. Temem, como todo mundo, estar em algum caminho sem volta, mas caminham sem-a-vergonha, pois sabem que o caminho e o caminhar são um só. Não se colocam a margem de desejos e anseios, sonham e sofrem como tu e mim tupiniquim, mas não cultuam pensamentos como estilo de vida. Preferem assim, de uma forma bacana ir baseando a vida naquilo que há mais de prazeroso. Flanam seus dias e meses e anos sem resmungues, enrolando vez ou outra, deixando pra depois e construindo um agora... completamente feliz, não, isso não diria, mas também quem poderia? Assim fazem um agora simpático e rico, com certo charme sujo e acolhedor. A gente se esbarra de vez em sempre se prometendo um futuro promissor, ser harmonioso e responsável em uma cidade supimpa, permeada de atrações e trilha sonora. E desses encontros eu vou desenhando um mais pra frente, daqui uns anos, quem sabe, perto deles, um bistrot a céu aberto no meio da avenida, onde chove por todo em volta e na gente o sol pigmenta e bronzeia. Martini bianco com três azeitonas nos copos e um brinde cor de anil que exalta épocas, boas gargalhadas, poucas fossas e principalmente o companheirismo de uma longa amizade

Ela saiu, foi fazer feira!

Amarelo cor de uva, uva tinta, cor púrpura assim ela é. Covardia no fazer, inércia no inovar, preguiça de pensar. Viveu, viveu, já ta caindo de madura e a queda se não a fizer acordar fará com que se esborrache no chão e aí é como plantar em parte alguma sementes mirradas em terra pobre. Acorde pra cuspir, estampar, encarar e expelir a vontade que borbulha lá dentro. Senão, do amarelo-roxo vais passar para o amarelo-pastel, “semgracinha” que dá dó, não vale nem um tostão. Amanhã é dia de feira, portanto faça valer a pena.

sábado, 27 de outubro de 2007

Será o Benedito?

Partindo do princípio que toda Cráudia é Cláudia e que todo gerso é gesso, será que a Creuza existe?
Dia desses tava passando de carro lá pelas bandas de Volta Redonda e vi numa dessas placas enormes que cobrem toda a fachada superior de um prediozinho baixo, fundo vermelho, letras capitais brancas, estilo papai Noel. Tava escrito assim: SPAR PARA HOMENS. Pensei: - Que chique, bem! Então estão mesmo se especializando e criando outros nichos de mercado, atraindo a clientela com novidades, criando um conceito moderno do batido spa, que por sinal, o que será que deixa a desejar vis a vis de um spaR?
Questiono se não segue a mesma linha do BUFFER RENATA que vi “anunciado” em uma caçamba, dessa vez mais para as bandas do Goiás.
No fundo no fundo estão mesmo é tentando "se dar" na lida, ganhar a acirrada disputa do dia a dia, sem se dar conta dos trupicos, ops, tropeços normais de qualquer peleja. Estão seguindo em frente, suponho que na honestidade e espero deixando de lado a fama da tal da lei de Gérson, ou será Gélson?

Instantes

Tá na hora do encontro, aperta no peito, dói a barriga que ronca ainda pela comida mal engolida do almoço pra tapear. O dia passou lento, a tarde foi calorenta, a noitinha chegou e que conversa fiada. O telefone chama sem parar e ninguém em casa pra dar notícia, para cumprir o prometido, pra sufocar os roncos de um ventre ávido de desejo. Vem a preocupação e a raiva. Não foi trocado. Não foi prometido. Foi por vontade própria empurrado pela força de uma rosa, guiado por um sonho desconhecido, nunca sonhado. Ou não. Talvez ele tenha mesmo se encontrado de uma maneira tal que nunca havia se percebido ou permitido.
A liberdade faz estrondar a barriga, faz borboletas saírem voando de lá, dizem alguns. E o que faz a preocupação se não o mesmo? A liberdade podada, a ocupação da mente com uma situação da qual não se tem controle. Refém.
O telefone toca sem resposta e continua tocando retorcendo a agonia, fortalecendo a loucura. O dia não é propício, a hora tampouco. Sem sono, com medo e fome, nem vela, nem choro, convive com o tempo, doma a impaciência, aguarda as notícias do front.

Me busca

Olhei pro relógio, não vi as horas, mas a data e lembrei do meu primeiro amor. Ele não foi o primeiro da infância, nem o primeiro das festinhas de dança da vassoura, ou o primeiro dos quatorze, quinze anos, muito menos o do primeiro beijo. Foi o primeiro depois de vários outros platônicos ou passageiros, o primeiro dos primeiros com direito a vaso de tulipa, longas madrugadas, algumas chuveiradas e sabor de corpo inteiro. Pioneiro a suportar os melindres, percebendo o que não suporto. O único até então a receber meus carinhos e a guardar numa caixinha mágica recordações de um amor já não mais tão inocente, contudo refém de uma época.
Ainda olhando para o relógio permiti, portanto, me deixar levar no pensamento que navegava macio como uma canoinha errante em águas plácidas, de um lado para o outro. Chegaram então memórias de uma primeira carona, outras de uma tal listinha com coisinhas mil planejadas e cumpridas, das viagens, dos dramas e dos incômodos de quando se ama. Fui longe, voltei nos detalhes charmosos de um amor com graça que hoje respira leve, mas que por muito tempo teve o tom de furta-cor. Ninei, suspirei e dobrei. Fechei a gaveta. Tirei o relógio, olhei pro agora e vi que minha vida ainda tem cheiro de baunilha, mas esse cheiro agora é meu. O que restou de lá vem agora com outros gostos, menos cheirosos, mas mais palatáveis pros dias de hoje. Eu diria então que tem cheiro de canela, no nuance é bom, mas cheirando de perto enjoa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Cachinhos de Ouro

Lembra da gente quando era tu lá e eu cá, eu te achava metida e era simples assim, a gente não se dava.
Lembra da gente, um pouco mais a frente, quando por acaso, como essas coisas que acontecem na infância, sem porquês deixamos de nos estranhar. Eu lembro do lanche na escola: você pega a mesa e eu fico na fila e lembro dos anos seguintes: você passa o dia lá em casa que depois eu durmo na sua. A gente finge que tem 18 anos e falsifica o documento, entra na boite, divide uma biritinha e sai correndo dando vexame.
Lembra como eram bonitos os pirralhos que a gente idolatrava, nos perdíamos nos planos mirabolantes, pensando serem eles os amores de nossas vidas. Eu melosa e cabeça dura, como pé de moleque e rapadura, choramingava... e choramingo ainda se for preciso, minhas mágoas dos amores da minha vida. Você escuta e consola, ri e chora e se inspira e a gente vira a página.
Se eu pudesse sairia agora com meu carro e iria te buscar pra gente dar umas voltas num domingo azedo, passando na casa de uns e outros, tentando arrebanhar os perdidos e terminar o dia na paz e na alegria.
Se eu pudesse, agora o sol estaria brilhando e eu tocaria a sua campainha num sábado preguiçoso só pra comer o peixe que o seu pai faz.
Se hoje fosse ontem, eu pegaria emprestado aquele seu brinco, você colocaria um lenço na cabeça e iríamos pra Búzios, Viena, Roma, Napoli, Maresias, Budapeste e Salvador. E a gente foi e foi feliz e planejou, estudou, amou, se divertiu, amarelou, desistiu, tropeçou, conseguiu, se atrapalhou, trabalhou, progrediu, amou mais uma vez, abençoou, viveu e ihh atrofiou.
Do hoje eu tenho a vontade, do futuro eu tenho a certeza de que você estará lá e que toda essa e outras historias são para a vida toda e que a gente tenha uma boa vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Do que fica

Do que fica eu não sei dizer, nem sentir, não consigo expulsar nem engolir. Indigesta a coisa que não acha tempo, época, musica ou tom. Tem hora que aperta, nada resolve, tudo é nulo, nem o risotto cai bem. Cadê a minha paz?

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Leisure"

"Que é a vida se com tanto a fazer, não temos tempo para parar e ver"

W. H. Davies
do poema "Leisure"

Inventaram a roda


...e assim ela te levou ao bar, ao colégio, ao portão da casa da namorada, à padaria às cinco da tarde. Esperou o beijo, a saideira, a fornada. Bebeu toda aquela ventania da ladeira abaixo, engoliu a seco a poça de lama e trepidou quando te viu cair. Te levou pra casa sujo, bêbado, louco, apaixonado. Tanto pedalou que cansou e morreu. Aqui jaz a bicicletinha.

Do tempo ao tempo

Noite triste, dividindo um sofá e um cobertor cheirando a mofo, divagando sobre a luz que acendia e apagava quase como se fosse o horizonte, pois o olhar era profundo, distante e confundia a vista cansada e molhada. Um papo legal, meio que sem rumo, assunto sem rédeas, tentando jogar fora o cansaço e matando a saudade ao mesmo tempo. Foi ali nesses vários instantes que seguiram que eu percebi que éramos grandes amigos.

Delírios

Se meu gato fosse embora, o pé de hortelã morresse e a máquina parasse de funcionar, eu pegaria L’indispensable Guide de Paris e daria umas voltas por lá.

Do "verbo" polegar

Eu polego
Tu polegas
Ele polega
Nós polegamos
Vós polegais
Eliana, dos dedinhos polega
Você desce no elevador pela manhã, saindo pela portaria cruza com o porteiro e solta um sonoro bom dia. Ele, sempre cordial, responde –Bom dia, tudo bem com o senhor? E você quase que no reflexo aciona o dedo polegar e responde: - Tudo na paz seu Antônio. Taí, tu polegaste! Tenha um bom dia.

PS: Etimologia: do francês, achando que sabe o português ao ouvir a palavra polegada.

domingo, 1 de julho de 2007

Charuto, Batom e Calisson

Noutro dia tava num café, o sol vinha do outro lado da rua direto pro meu rosto, o mês era fevereiro e o hemisfério era o norte. Frescor perfeito, frio com sol, meu predileto como eu já disse a alguém que nem se lembra mais. Tudo o que eu conseguia era ficar ali parada, tentar escrever e vez ou outra pedir um espresso. Daí surge a personagem, a simpática "Senhoura ao lado", me puxa pra conversa e eu com aquela preguiça de me-deixa-na-cama-que-são-só-mais-cinco-minutinhos tento escutar com a maior paciência do mundo. Diz ela que não consegue entender como eu e a maioria dos canhotos do mundo consegue escrever assim todos tortos, enviesando ora o papel, ora a caneta, o punho e as letras. sorriso. sorriso. virei pro meu lado. Engano meu, continuou o papo. Penso eu, pronto, já ganhei meu dia francês: café, cigar e papo furado. Sim, senhor seu cigar, um baita charutão fumava a respeitável "Cenoura ao lado" e completou dizendo que na França muitas mulheres fazem que nem ela. Entre baforadas, bonjour para cada 6 entre 10 pessoas que passavam pela calçada e lero leros, Madame au Cigar me ofereceu um Calisson, um docinho típico da região que eu por acaso tava louca pra provar. Não gostei. Pedi mais um café, mas comecei a ficar inquieta, alguma coisa me dizia que eu deveria ir embora, provavelmente foi a pergunta da madame, - Você não tem curso hoje? Soou como uma mãe xereta mandando indiretamente o filho fazer algo mais útil na vida do que ficar olhando a moda passar. O sol também já dava sinais de querer passar pro outro lado, já não estava tão quente quanto antes. paro. percebo. Mesmo os momentos mais estáveis e perfeitos passam. Passam pra mim e passam pra "senhora ao lado" que por uma última vez me interrompeu a escrita para me perguntar as horas.





Em tempo - adoro o jeito dos franceses de dizer bonjour pra tudo assim, no meio da tarde, no fim do dia. Extremamente delicado.