segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Clichê

Texto inspirado na música Paris s'eveille de Jacques Dutronc


Ele ou ela, um personagem qualquer, sem traços, ou abraços. Cabelos, sim os têm, assim... como dizer... curtos, castanhos, nem lisos nem ondulados. Retrato falado do famigerado Joe, Regular Joe, ou do Zé, o Zé Ninguém, que pode ser homem ou mulher, um fulano qualquer, sem sofrimentos anormais, nem alegrias exacerbadas, sem crimes ou castigos, apenas mais um que acorda e vai dar uma olhada em qualquer lugar do mundo.
Caminhar ele sabe e é preciso, sai de casa às cinco da manhã numa daquelas épocas escuras de horário trocado, padarias que ainda cheiram a farinha, travestis e putas voltando da labuta, velocípedes e bicicletas estacionados na inércia para mais um dia de trabalho. O primeiro trem em marcha lenta recolhe taciturnos e matutinos misturados, lixeiras vazias ainda iluminadas pelos postes das vias, são palco para gatos ora acuados, se esbaldarem. Não é noite não é dia, ainda não faz calor, mas o vento sossega e assim, ele ou ela observa, sem conseguir participar. Vive, mas não à vontade, se escondendo, sem querer, pelo caminho que em breve se transformara em cidade.
Um quarto d'hora se passou e nosso amigo Joe ou Zé, que pra facilitar vou chamar de Josué não pára, ou pára, mas teme, hesita como quem diz, estou de altas, num botequim para o seu café com leite. Em goles, engole tudinho fazendo barulho de menino, limpa a boca com a mão, passa a mão no cabelo, agradece singelo e continua caminhando. Cinco e meia Josué já vê nas ruas garis e suas vassouras loucas que perturbam os de sono leve, dali a pouco chegam os operários remelentos, as mães e seus rebentos para mais um dia que promete ser intenso. Quase seis horas, Josué, que já não era destaque, porta bandeira ou estandarte, rodopia, se mistura e se perde intensamente fazendo a vida à toa se transformar em arte.

domingo, 28 de outubro de 2007

Terra do Nunca

Conheço dois meninos perdidos assim do estilo deixa-a-vida-me-levar que eu levo a sério. De seus desencontros fazem seus, os maiores acertos. Temem, como todo mundo, estar em algum caminho sem volta, mas caminham sem-a-vergonha, pois sabem que o caminho e o caminhar são um só. Não se colocam a margem de desejos e anseios, sonham e sofrem como tu e mim tupiniquim, mas não cultuam pensamentos como estilo de vida. Preferem assim, de uma forma bacana ir baseando a vida naquilo que há mais de prazeroso. Flanam seus dias e meses e anos sem resmungues, enrolando vez ou outra, deixando pra depois e construindo um agora... completamente feliz, não, isso não diria, mas também quem poderia? Assim fazem um agora simpático e rico, com certo charme sujo e acolhedor. A gente se esbarra de vez em sempre se prometendo um futuro promissor, ser harmonioso e responsável em uma cidade supimpa, permeada de atrações e trilha sonora. E desses encontros eu vou desenhando um mais pra frente, daqui uns anos, quem sabe, perto deles, um bistrot a céu aberto no meio da avenida, onde chove por todo em volta e na gente o sol pigmenta e bronzeia. Martini bianco com três azeitonas nos copos e um brinde cor de anil que exalta épocas, boas gargalhadas, poucas fossas e principalmente o companheirismo de uma longa amizade

Ela saiu, foi fazer feira!

Amarelo cor de uva, uva tinta, cor púrpura assim ela é. Covardia no fazer, inércia no inovar, preguiça de pensar. Viveu, viveu, já ta caindo de madura e a queda se não a fizer acordar fará com que se esborrache no chão e aí é como plantar em parte alguma sementes mirradas em terra pobre. Acorde pra cuspir, estampar, encarar e expelir a vontade que borbulha lá dentro. Senão, do amarelo-roxo vais passar para o amarelo-pastel, “semgracinha” que dá dó, não vale nem um tostão. Amanhã é dia de feira, portanto faça valer a pena.

sábado, 27 de outubro de 2007

Será o Benedito?

Partindo do princípio que toda Cráudia é Cláudia e que todo gerso é gesso, será que a Creuza existe?
Dia desses tava passando de carro lá pelas bandas de Volta Redonda e vi numa dessas placas enormes que cobrem toda a fachada superior de um prediozinho baixo, fundo vermelho, letras capitais brancas, estilo papai Noel. Tava escrito assim: SPAR PARA HOMENS. Pensei: - Que chique, bem! Então estão mesmo se especializando e criando outros nichos de mercado, atraindo a clientela com novidades, criando um conceito moderno do batido spa, que por sinal, o que será que deixa a desejar vis a vis de um spaR?
Questiono se não segue a mesma linha do BUFFER RENATA que vi “anunciado” em uma caçamba, dessa vez mais para as bandas do Goiás.
No fundo no fundo estão mesmo é tentando "se dar" na lida, ganhar a acirrada disputa do dia a dia, sem se dar conta dos trupicos, ops, tropeços normais de qualquer peleja. Estão seguindo em frente, suponho que na honestidade e espero deixando de lado a fama da tal da lei de Gérson, ou será Gélson?

Instantes

Tá na hora do encontro, aperta no peito, dói a barriga que ronca ainda pela comida mal engolida do almoço pra tapear. O dia passou lento, a tarde foi calorenta, a noitinha chegou e que conversa fiada. O telefone chama sem parar e ninguém em casa pra dar notícia, para cumprir o prometido, pra sufocar os roncos de um ventre ávido de desejo. Vem a preocupação e a raiva. Não foi trocado. Não foi prometido. Foi por vontade própria empurrado pela força de uma rosa, guiado por um sonho desconhecido, nunca sonhado. Ou não. Talvez ele tenha mesmo se encontrado de uma maneira tal que nunca havia se percebido ou permitido.
A liberdade faz estrondar a barriga, faz borboletas saírem voando de lá, dizem alguns. E o que faz a preocupação se não o mesmo? A liberdade podada, a ocupação da mente com uma situação da qual não se tem controle. Refém.
O telefone toca sem resposta e continua tocando retorcendo a agonia, fortalecendo a loucura. O dia não é propício, a hora tampouco. Sem sono, com medo e fome, nem vela, nem choro, convive com o tempo, doma a impaciência, aguarda as notícias do front.

Me busca

Olhei pro relógio, não vi as horas, mas a data e lembrei do meu primeiro amor. Ele não foi o primeiro da infância, nem o primeiro das festinhas de dança da vassoura, ou o primeiro dos quatorze, quinze anos, muito menos o do primeiro beijo. Foi o primeiro depois de vários outros platônicos ou passageiros, o primeiro dos primeiros com direito a vaso de tulipa, longas madrugadas, algumas chuveiradas e sabor de corpo inteiro. Pioneiro a suportar os melindres, percebendo o que não suporto. O único até então a receber meus carinhos e a guardar numa caixinha mágica recordações de um amor já não mais tão inocente, contudo refém de uma época.
Ainda olhando para o relógio permiti, portanto, me deixar levar no pensamento que navegava macio como uma canoinha errante em águas plácidas, de um lado para o outro. Chegaram então memórias de uma primeira carona, outras de uma tal listinha com coisinhas mil planejadas e cumpridas, das viagens, dos dramas e dos incômodos de quando se ama. Fui longe, voltei nos detalhes charmosos de um amor com graça que hoje respira leve, mas que por muito tempo teve o tom de furta-cor. Ninei, suspirei e dobrei. Fechei a gaveta. Tirei o relógio, olhei pro agora e vi que minha vida ainda tem cheiro de baunilha, mas esse cheiro agora é meu. O que restou de lá vem agora com outros gostos, menos cheirosos, mas mais palatáveis pros dias de hoje. Eu diria então que tem cheiro de canela, no nuance é bom, mas cheirando de perto enjoa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Cachinhos de Ouro

Lembra da gente quando era tu lá e eu cá, eu te achava metida e era simples assim, a gente não se dava.
Lembra da gente, um pouco mais a frente, quando por acaso, como essas coisas que acontecem na infância, sem porquês deixamos de nos estranhar. Eu lembro do lanche na escola: você pega a mesa e eu fico na fila e lembro dos anos seguintes: você passa o dia lá em casa que depois eu durmo na sua. A gente finge que tem 18 anos e falsifica o documento, entra na boite, divide uma biritinha e sai correndo dando vexame.
Lembra como eram bonitos os pirralhos que a gente idolatrava, nos perdíamos nos planos mirabolantes, pensando serem eles os amores de nossas vidas. Eu melosa e cabeça dura, como pé de moleque e rapadura, choramingava... e choramingo ainda se for preciso, minhas mágoas dos amores da minha vida. Você escuta e consola, ri e chora e se inspira e a gente vira a página.
Se eu pudesse sairia agora com meu carro e iria te buscar pra gente dar umas voltas num domingo azedo, passando na casa de uns e outros, tentando arrebanhar os perdidos e terminar o dia na paz e na alegria.
Se eu pudesse, agora o sol estaria brilhando e eu tocaria a sua campainha num sábado preguiçoso só pra comer o peixe que o seu pai faz.
Se hoje fosse ontem, eu pegaria emprestado aquele seu brinco, você colocaria um lenço na cabeça e iríamos pra Búzios, Viena, Roma, Napoli, Maresias, Budapeste e Salvador. E a gente foi e foi feliz e planejou, estudou, amou, se divertiu, amarelou, desistiu, tropeçou, conseguiu, se atrapalhou, trabalhou, progrediu, amou mais uma vez, abençoou, viveu e ihh atrofiou.
Do hoje eu tenho a vontade, do futuro eu tenho a certeza de que você estará lá e que toda essa e outras historias são para a vida toda e que a gente tenha uma boa vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Do que fica

Do que fica eu não sei dizer, nem sentir, não consigo expulsar nem engolir. Indigesta a coisa que não acha tempo, época, musica ou tom. Tem hora que aperta, nada resolve, tudo é nulo, nem o risotto cai bem. Cadê a minha paz?

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Leisure"

"Que é a vida se com tanto a fazer, não temos tempo para parar e ver"

W. H. Davies
do poema "Leisure"

Inventaram a roda


...e assim ela te levou ao bar, ao colégio, ao portão da casa da namorada, à padaria às cinco da tarde. Esperou o beijo, a saideira, a fornada. Bebeu toda aquela ventania da ladeira abaixo, engoliu a seco a poça de lama e trepidou quando te viu cair. Te levou pra casa sujo, bêbado, louco, apaixonado. Tanto pedalou que cansou e morreu. Aqui jaz a bicicletinha.

Do tempo ao tempo

Noite triste, dividindo um sofá e um cobertor cheirando a mofo, divagando sobre a luz que acendia e apagava quase como se fosse o horizonte, pois o olhar era profundo, distante e confundia a vista cansada e molhada. Um papo legal, meio que sem rumo, assunto sem rédeas, tentando jogar fora o cansaço e matando a saudade ao mesmo tempo. Foi ali nesses vários instantes que seguiram que eu percebi que éramos grandes amigos.

Delírios

Se meu gato fosse embora, o pé de hortelã morresse e a máquina parasse de funcionar, eu pegaria L’indispensable Guide de Paris e daria umas voltas por lá.

Do "verbo" polegar

Eu polego
Tu polegas
Ele polega
Nós polegamos
Vós polegais
Eliana, dos dedinhos polega
Você desce no elevador pela manhã, saindo pela portaria cruza com o porteiro e solta um sonoro bom dia. Ele, sempre cordial, responde –Bom dia, tudo bem com o senhor? E você quase que no reflexo aciona o dedo polegar e responde: - Tudo na paz seu Antônio. Taí, tu polegaste! Tenha um bom dia.

PS: Etimologia: do francês, achando que sabe o português ao ouvir a palavra polegada.