Olhei pro relógio, não vi as horas, mas a data e lembrei do meu primeiro amor. Ele não foi o primeiro da infância, nem o primeiro das festinhas de dança da vassoura, ou o primeiro dos quatorze, quinze anos, muito menos o do primeiro beijo. Foi o primeiro depois de vários outros platônicos ou passageiros, o primeiro dos primeiros com direito a vaso de tulipa, longas madrugadas, algumas chuveiradas e sabor de corpo inteiro. Pioneiro a suportar os melindres, percebendo o que não suporto. O único até então a receber meus carinhos e a guardar numa caixinha mágica recordações de um amor já não mais tão inocente, contudo refém de uma época.
Ainda olhando para o relógio permiti, portanto, me deixar levar no pensamento que navegava macio como uma canoinha errante em águas plácidas, de um lado para o outro. Chegaram então memórias de uma primeira carona, outras de uma tal listinha com coisinhas mil planejadas e cumpridas, das viagens, dos dramas e dos incômodos de quando se ama. Fui longe, voltei nos detalhes charmosos de um amor com graça que hoje respira leve, mas que por muito tempo teve o tom de furta-cor. Ninei, suspirei e dobrei. Fechei a gaveta. Tirei o relógio, olhei pro agora e vi que minha vida ainda tem cheiro de baunilha, mas esse cheiro agora é meu. O que restou de lá vem agora com outros gostos, menos cheirosos, mas mais palatáveis pros dias de hoje. Eu diria então que tem cheiro de canela, no nuance é bom, mas cheirando de perto enjoa.
Em obras!
Há 10 anos
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