Mandou fazer cortinas pra enfeitar a casa no fim do ano, escolheu tecidos finos, muitos metros bem franzidos como manda a moda de vinte anos atrás. Lurdinha é daquelas que gosta das coisas em seus devidos lugares. Copos alinhados na prateleira, cada qual com seu porta-copo evitando marcas de suor. Café no bule e chá na chaleira. Os vasos, ah seus vasos, todos com decalque comprovando a origem, exaltando a proveniência. - Etiqueta não se tira! - ensina ela mostrando orgulhosa a herança da avó, um legítimo murano e um adesivo azul com cola amarela. Outros mimos de Lurdinha são as miniaturas em cristal. Tem de toda sorte: cachorrinho, peixinho ou um caracol que reflete do casulo uma cor violeta. - Esse daqui é o lapin. Diz, tentando ser sapeca, enquanto mostra o protótipo um de coelho.
Esperadas as três semanas do prazo a encomenda finalmente chega e faltavam poucos retoques na casa pra ela receber o meio mundo que idolatrava. Eram então o sobrinho e a namorada, o irmão mais novo e a vizinha solteira, meio que sem eira nem beira que só ia mesmo para temperar a soirée.
Mandou quarar e passar toalha rendada, limpou a prataria, comprou um aparelho DVD, colou com superbonder a alça da velha jarra d’água e pronto, aos seus olhos estava tudo perfeito.
Tamanha era sua alegre inocência, ela bem que tentou marcar tudo para o dia certo, mas aparentemente todos já tinham compromissos inadiáveis, sabe-se lá o que. Portanto, quando nas ruas ainda se curtia a ressaca do natal, enterravam-se os ossos, naquele eterno dormir e acordar do dia seguinte, Lurdinha e a ajudante, contratada para o evento, estavam a mil com o apartamento cheirando a cravo e pernil. Rabanadas para a sobremesa acompanhando o Pannetone e ela nem se dava conta de que aquilo tudo era óbvio demais.
Lá pelas seis da tarde a vizinha aparece dizendo do cheiro, que de tão bom subia até o quarto andar. Mais meia hora, o irmão então chega acompanhado de uma mocinha estranha para a surpresa de Lurdes Maria que só havia previsto cinco lugares na mesa.
Entre olhadelas no forno e fiquem a vontade, o tempo foi passando e quando viu já passava das nove e meia. De Lucas, seu sobrinho, nem sinal, tampouco de sua namoradinha que ela nem se lembra o nome, mas tem consigo que é gentil e boa moça.
Resolvem assim enganar o estômago comendo pedaços do peru que já estava cozido e mais um pouco esturricava no forno. Foi no sofá mesmo, beliscando de um prato comum colocado delicadamente pela anfitriã na mesa de centro que ficaram assistindo a um programa na tv. Dali a pouco chegou a farofinha para acompanhar, as rabanadas e na hora em que Lurdinha propõe, como que despretensiosa, o filme alugado especialmente para a ocasião, querendo fazer crer que seu modernozo aparato DVD lhe pertencia de longa data, a campainha toca e seu sobrinho cheirando a ontem entra diluindo o papo, evitando delongas nas respostas da noitada moribunda. Logo o irmão dá aquela despertada, cutuca a amiga que tenta disfarçar pra não ficar chato, mas não dá mais.
-Muito obrigada por tudo e até a próxima! Foram embora.
Sobrou a vizinha que cantarolava qualquer coisa pra ela mesma e os dois: tia e sobrinho. Foi ali no reme-reme que ficaram algo como uns vinte e três minutos, passados, religiosamente, em vinte e três minutos, quando a vizinha então se despede em meio a um bocejo acebolado.
Dai pra depois nada de mais: Lucas se aboleta no sofá e começa a ressonar enquanto Lurdinha dá a última olhada na casa ainda pronta para a festa, recolhe pratos e talheres limpos, empacota o Pannetone intacto para não ressecar e suspira um ar cheio de vontade.
Em obras!
Há 10 anos
2 comentários:
classe!
Mademoiselle, adorei, me lembro quando cê tava escrevendo essa, héhé demorou um poquinho mas valeu a pena. merci beaucoup ! tem algumas palavras que eu tem que eclaircir com você. Uma bise
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